Um viciado: o dependente.
As coisas começaram muito cedo, não sei bem quando.
Não sei se foi na noite, numa festa, numa daquelas exposições de gado
ou de leite.
Não me lembro se estava sozinho, se no meio de outras pessoas.
Apenas não me lembro.
Lembro-me que no começo parecia uma coisa ingénua que tirava um bocado
a cabeça da “vida real” e fazia o pensamento voar. Parecia uma coisa boa, que
me transportava para outro lugar, diferente daquele que eu estivesse, onde eu
podia encontrar mais alegria, mais emoção.
Onde eu conseguia retirar mais e mais de tudo o que conseguia ver.
Parecia tudo um tanto inocente que eu, honestamente, não me importei de
continuar (vez ou outra) nessa onda, nessa viagem.
Houve momentos em que conseguia sentir coisas que, em estado normal,
nunca tinha experimentado.
As coisas conseguiam ser melhores, as cores eram mais vivas, a música
era perfeita e tudo se encaixava numa harmonia maravilhosa.
E de tanto gostar daquilo tudo eu comecei a querer mais.
Já não me contentava com o “de vez em quando” e fui criando um hábito,
uma frequência, um modo de estar e de viver em que aqueles momentos já eram algo
mais do que importante.
Quase necessário.
Fui perdendo o medo de fazer em público, na rua, entre pessoas
desconhecidas … medo nenhum.
Tinha sempre presente comigo e era só querer: num estalar de dedos e a
viajem começava.
Não tenho orgulho nenhum nisso e não faço aqui qualquer apologia a quaisquer
“más experiências necessárias”.
Não.
Também não faço mea culpa pública para lavar a minha consciência. Não
também.
Vivi uns tempos da minha vida em que pensei ter a situação controlada
(pelo menos era nisso que eu acreditava) mas que na verdade inebria, envolve e acabou
me dominando.
Foi se apoderando de mim, da minha capacidade de estar tranquilo e
sereno, de viver no mundo real, e de sentir as coisas com a intensidade que
elas, de facto, têm – e não com uma intensidade “aumentada”.
Admito que a partir desse momento tomei, por opção, o caminho mais
fácil: o da entrega.
Desisti de lutar contra e fui pelo caminho mais fácil. Viver aquilo
tudo a mil por hora.
Fui pelo caminho do prazer pela ilusão … e senti prazer. Muito prazer.
Vivi coisas, vi e ouvi, percebi e senti coisas que se estivesse
simplesmente lúcido, acordado para a vida, não teria sentido.
É verdade.
Fui e voltei ao redor do mundo e dentro da minha cabeça eu era mais
forte, mais poderoso e mais querido do que o mais querido de todos.
Foi chegando uma certa preguiça de correr atrás da felicidade real e
concreta … passava horas ouvindo música e curtindo a minha “onda”.
Foi o meu período negro. Não evoluí, não cresci e apenas vivi de
ilusão.
Dormi, acordei e dormi ilusão.
Sinto ter perdido alguns preciosos momentos da minha vida que, por
opção única e exclusivamente minha, me afastei da vida real.
Sei disso.
Até que um dia resolvi investir mais naquilo que eu “via” nas minhas
viagens e decidi correr atrás daqueles devaneios todos.
Saí, viajei, mudei, destruí, construí, empreendi … toquei, cantei,
dancei … fiz um monte de coisas que o “rapazinho certinho” (já nessas alturas
adormecido) dificilmente faria.
Admito que mesmo com tudo de negativo, fui impelido à sair,
aventurar-me, conquistar, buscar qualquer coisa que me conectasse à vida.
Mas a verdade é que eu tornei a viajar no mundo da ilusão.
Ergui verdadeiros e majestosos castelos, mas que eram de cartas e não
aguentavam nem uma brisazinha, senão iam para o chão.
Mas, tudo bem … construía outro, e outro, e outro: era fácil.
Por vezes começava mas não conseguia atingir o meu nirvana. E então
insistia … e era mais e mais, e cada vez mais … até conseguir “chegar lá”.
Com o passar do tempo, e talvez com a idade, comecei a sentir uma certa
vergonha de viver assim tão fora da realidade.
Comecei a minha luta para reerguer uma vida concreta ao meu redor e me
cercar de sentimentos reais (palpáveis).
Senti vergonha de mim próprio e da irresponsabilidade dos meus actos
pois o tempo vai passando e todos os minutos que deixamos para trás, esses, já
nunca mais voltarão.
Acreditei que precisava esfriar os ânimos, tentar retirar prazer das
pequenas coisas e redireccionar a vida para um caminho mais tranquilo, mais
calmo talvez.
Acreditei que poderia ser capaz de sentir emoções tão boas ou melhores
do que as “ego-trips” que a minha cabeça aprendeu a criar, se eu fosse capaz de
olhar para tudo o que há de simples da vida.
Vivi o tempo de concretismo.
Estava sempre acordado, sempre alerta e sempre atento aos mais pequenos
sinais do tempo, da natureza, das pessoas … de tudo.
Meus olhos estavam sempre abertos, sãos, olhando a vida exactamente do
jeito que ela é.
Também fui feliz.
Fui feliz porque vivi o momento de terra-a-terra, porque tinha os pés o
chão, os planos bem definidos na cabeça e a meta bem traçada.
Fiz bastante coisa boa.
Fiz uma família.
Fui outra pessoa, que viveu no mesmo corpo que eu mas que experimentou
outra forma de estar nessa vida.
Mas o tempo deu mais uma volta e agora os ventos sopram de um lado
diferente – outra vez.
Hoje sinto tudo aquilo, lenta e gradativamente, querendo se apresentar
outra vez.
Estou em outro momento, tenho outra maturidade, tenho a experiência e a
vivência, e sei que não posso controlar a vida, porque a vida é como ela é.
Mas estou sentido voltar aquela necessidade que eu tinha de sair da
terra, sair da minha vida consciente e experimentar coisas que estão dentro do
meu coração: e não do controle inteligente do meu raciocínio.
Me pego agora vivendo mais uma vez aquelas situações que, eu sei, não
devem tomar conta de mim e para as quais não devo me entregar.
Mas que eu quero viver, que eu sei que é até capaz de me ajudar alçar
novos voos e atingir mais felicidade …
Estou trabalhando com a minha cabeça, mas o meu corpo é fraco e começo
a sentir que ainda não tenho a capacidade de controlar essa minha dependência,
esse meu vício …
… de sonhar.
(Carlos Armando Angerosa Stumpo)